Querido Diário,
nossa! Faz um bucado de tempo desde a última postagem.
Desde a última postagem eu estive refletindo sobre muitas coisas, dentre as quais, como não poderia deixar de ser, a palavra "vestibular" teve grande impacto e relevância, mas também tiveram outros assuntos, como, por exemplo, a minha família que mora na mesma cidade em que habito, na verdade não se pode chamar de famílias, são alguns primos e amigos deles que me ajudaram quando eu precisei de moradia temporária, mas que depois de um certo tempo eu percebi que já havia saldado a dívida para com eles e, por isso, não precisava mais ficar perdendo meu tempo em ir visitá-los e fazer o papel do bom mocinho castrado e extremamente preocupado com o bem estar da família e com os estudos.
Ai Diário. Espero que você não me entenda mal, mas é que acabei de ler o livro Memórias Póstumas de Brás Cubas, sei que nessa altura do campeonato eu já deveria estar bem mais adiantado, mas ainda falta ler o livro Viagens nas Minha Terra, de Almeida Garret. Isso sem contar na quantidade de matéria que eu tenho para por em dia nesses últimos dias de férias que me restam.
Enfim, mas voltando ao assunto da minha ex-família, rsrsrs... É estranho como eu passei a odiar aquelas pessoas, às vezes eu chego a pensar em como eu posso odiar alguém que apenas me ajudou, que nem chegou a me fazer nenhum mal, mas sei lá, o simples fato de eu perceber que eles sambem que eu sou gay, mas mesmo assim fingem não saber de nada me dá asco.
Acho que o porquê de todo esse ódio é que me remete ao tempo em que morava com meus pais e tinha que ficar escondendo minha vida particular deles e ainda por cima lida com a cobrança estampada na cara de minha mãe. É como se eu estivesse regredindo, se todo o sofrimento pelo qual eu passei estivesse retornando e então eu me pergunto: Por quê? Por que regredir? Você não está aqui para isso, você está aqui para tentar melhorar sua vida financeiramente. Quem são essas pessoas para ousarem me cobrar algum tipo de atitude ou mesmo me obrigar a ter de mentir de novo sobre a minha vida, sobre quem realmente eu sou?
Eu sei que tudo o que eu estou escrevendo não tem sentido, me desculpe Diário, eu apenas estou falando um monte de besteira sem sentido nenhum.
Mas, só para finalizar esse assunto. Eu decidi não frequentar mais a casa de ninguém. Fiz uma visita rápida a casa de minha mãe, passei a não ir mais a casa de meus ex-familiares e resolvi ficar mais na minha casa, tentar me dedicar mais ainda aos meus estudos e frequentar mais a academia, que graças a DEUS, já está começando a me render resultados, pois estou com 104cm de bunda e 101cm de quadril, na expectativa de diminuir ainda mais o quadril e aumentar ainda mais a poupança, rsrsrs...
Outro acontecimento que foi responsável por abalar a minha frágil estrutura: o meu melhor amigo me revelou ser gay.
Fiquei completamente transtornado com essa revelação, porque foi ele quem eu escolhi para ser a primeira pessoa a saber que eu era homossexual.
Era uma tarde linda, não recordo de qual mês, mas a gente se encontrou em uma praça, a mais linda da antiga cidade onde morei e, como eu já havia decidido, resolvi me abrir para ele e contar, de forma bem efêmera que eu gostava de garotos e não de garotas. Para minha grata surpresa ele reagiu de forma tão compassiva e fraternal que tivemos de mudar de banco, porque já estávamos levantando suspeita de algujns casais de namorados que estavam sentados próximos de nós.
Agora, praticamente dois anos depois, ele simplesmente me liga e fala em tom até meio dramático que também é gay e "não tem jeito não!". Como assim, parece até que ele relutava em admitir. Lógico que relutava, até eu mesmo que desde sempre soube o que eu queria fazer com os meninos, quando percebi que o que parecia ser fruto do inconsciente da minha cabeça simplesmente tratava-se de uma atração natural e que não adiantaria nada ir contra o curso natural das coisas, me vi, muitas vezes, tentando me agarrar a algo que pudesse me dar força para negar o que de fato eu sou.
Pois é, mas ainda assim eu fiquei um pouco triste. Triste por ele ter admito só agora depois que já estamos tão longe um do outro que não podemos mais curtir esse momento juntos.
Não me entenda mal Diário, eu não estou apaixonado pelo meu amigo, até nutri algum sentimento afetuoso por ele quando éramos adolescentes, mas eu percebi que gostava muito mais dele como amigo e se nos tornássemos algo mais do que isso acabaríamos perdendo essa compreensão mútua, esse amor fraterno que só amigos podem se dar.
Eu posso dizer que eu o amo e que agora que finalmente ele se encontrou eu sinto que gosto ainda mais dele.
Depois que ele me confidenciou ser homossexual, também passou a me contar e com detalhes as aventuras sexuais, tudo por telefone, damos muitas risadas juntos e eu, como sempre fiz, dou muitos conselhos para ele, já que eu percebo que ele anda um pouco deslumbrado com a noite gay e seus deliciosos protagonistas.
O problema é que de certo modo isso mexe comigo, porque, ao contrário dele, eu sou um cara mulato, sem muitos atributos físicos que possam chamar a atenção de possíveis parceiros e ainda por cima tenho um histórico sexual podre, para ser bem franco.
Desde sempre eu fiz sexo com todo tipo de gente, com amigos do meu pai, com desconhecidos, com amigos de escola, vizinhos, filhos dos vizinhos, com meu próprio irmão, até com animais, rsrsrs, CRUZES!, mas é a mais pura verdade, meu DEUS, acho que vou acabar no inferno por causa disso tudo.
Aí, vem uma pessoa tão pura (pura mesmo, porque ele era evangélico e só pretendia perder a virgindade depois do casamento) e me conta suas aventuras, mostra fotos dos caras que está pegando, todos gostosos, diga-se de passagem, e ainda me conta como foi sua primeira vez com uma cara lindo, um verdadeiro sonho. Realmente eu me senti um lixo, um excremento fétido, o mais fétido de todos.
Acho que tudo isso me fez ficar um pouco triste. Que droga. Eu, com 23 anos e já estou pagando para ter sexo com boys gostosos, enquanto que meu amigo está curtindo gratuitamente seus bofes, que não são bombados como os que eu pago, mas são pessoas com sentimentos legítimos e não oportunistas.
É isso, eu sei que você vai dizer que eu sou uma bicha recalcada e invejosa. Acho que eu também estou pensando a mesma coisa de mim mesmo. É triste!
Bom, é isso. Eu tenho ido à academia regularmente, com maior regularidade do que antes. Durante os exercícios tenho buscado me esforçar ao máximo para conseguir finalmente adequar meu corpo ao que espero dele. Nos estudos eu ando em falta, a pornografia tem sido uma amante egoísta, que vira e mexe eu tenho que me policiar para não passar o dia inteiro em frente ao computador me masturbando e vendo filmes eróticos de todos os tipos.
Percebe-se que eu não consegui cumprir com muitos dos meus objetivos até agora. Eu tenho muita vontade de saber o que me aguarda no futuro e sempre vem à minha mente uma frase, atribuída à Buda, que eu vi um dia colada na parede de uma xerocopiadora que dizia: "...os homens perdem a saúde em busca do dinheiro, depois perdem dinheiro tentando recuperar a saúde e na busca desenfreada pela riqueza passam os dias planejando o futuro como se nunca fossem envelhecer e assim, acabam vivendo como se nunca fossem morrer e morrem sem nunca terem vivido". É mais ou menos isso que dizia a frase. Só sei que ela teve um impacto muito grande sobre mim, porque eu sempre soube e aceitei que meu destino é exatamente esse.
Já são 00h e 30min, está na hora de dormir.
Boa noite, meu querido Diário.